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UM SENTIDO DE REALIZAÇÃO

Uma das frases que ouvimos hoje é esta: “As pessoas já não têm mais orgulho do seu trabalho.” Há um senso de perda em nossa era. A erosão dos padrões de artesanato representa uma erosão moral ainda maior em nossa sociedade.

Inquestionavelmente, o sistema de livre mercado produziu exemplos notáveis de produtividade. Não há como comparar uma calculadora eletrônica portátil e barata com as máquinas de somar que eram universais há uma década. Não há como comparar um centro de entretenimento doméstico — aparelho de som, televisão em cores, videogames, etc. — com qualquer coisa que existisse antes da década de 1920. Nem mesmo reis possuíam os aparelhos que os compradores americanos médios consideram normais. O alto nível de artesanato de um carro de 1908, que em sua época custava duas ou três vezes a renda anual de uma família típica, não produzia um carro tão confiável, confortável e barato de operar quanto qualquer linha de montagem de Detroit pode produzir hoje. As técnicas de produção em massa de fato produziram milagres.

A Contradição da Superespecialização

No entanto, há problemas sérios em qualquer sistema de produção que os homens possam conceber, pois as tarefas de domínio sempre são custosas, de uma forma ou de outra. O mundo em seu estado caído resiste aos nossos esforços de sujeitá-lo — e isso inclui a nós mesmos. Também somos rebeldes. Ressentimo-nos de ser dominados. Ressentimo-nos das formas organizacionais que exigem nosso trabalho.

O problema do sistema de produção de hoje, do ponto de vista psicológico e emocional, é a sua despersonalização. Isso é tão verdadeiro em um país socialista quanto em um capitalista. Na verdade, é provavelmente mais verdadeiro num país socialista, já que a mão paralisante da burocracia enfrenta menos concorrência sob o socialismo.

Há uma seção famosa nas primeiras páginas de A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith, que descreve a impressionante produtividade de uma operação moderna de fabricação de alfinetes daquela época. Um único fabricante de alfinetes mal conseguia produzir um por dia sem a moderna divisão do trabalho, mas uma equipe de dez homens usando equipamentos especializados podia, nos dias de Smith, produzir cerca de 50.000 alfinetes em um único dia — ou cerca de 5.000 por homem por dia. Obviamente, essa produtividade é de grande benefício para o consumidor de alfinetes. O homem comum pode comprar tudo o que precisar.

O custo dessa produtividade não é medido apenas pelos salários pagos ou pelo gasto com o metal envolvido. Alexis de Tocqueville, o brilhante jovem francês cuja visita à América levou à redação de seu clássico Democracia na América (1833), comentou sobre as observações de Smith: “Quando um operário se ocupa incessante e exclusivamente da fabricação de uma coisa, ele acaba executando seu trabalho com uma destreza singular; mas ao mesmo tempo perde a faculdade geral de aplicar sua mente à direção do trabalho. A cada dia torna-se mais hábil e menos industrioso; de modo que pode-se dizer dele que, na proporção em que melhora como operário, degrada-se como homem.

O que se pode esperar de um homem que passou vinte anos de sua vida fazendo cabeças de alfinete? E a que pode ser aplicada, nesse homem, aquela poderosa inteligência humana que tantas vezes agitou o mundo, senão para investigar a melhor maneira de fazer cabeças de alfinete?”

O resgate cristão do valor pessoal no trabalho

Há alguma resolução para esse aparente paradoxo? Como podemos continuar sendo beneficiários de um sistema de produção em massa competitivo em preços e ainda evitar a potencial despersonalização envolvida no alto grau de especialização exigido pelas técnicas modernas de produção em massa? Como cristãos sérios, podemos sugerir alternativas realistas ao mundo secular?

O primeiro e mais importante ponto a ter em mente é que a despersonalização do homem moderno tem sido produto de uma filosofia de despersonalização. Os humanistas seculares, desde o Renascimento até os marxistas e existencialistas, negaram o próprio fundamento do personalismo: a saber, o Criador que fez e atualmente sustenta toda a criação. Falando de Cristo, Paulo escreve: “Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.” (Cl 1:16-17, ARA). Nosso universo é um universo de personalismo cósmico. Portanto, somos verdadeiras pessoas porque fomos feitos à imagem de Deus (Gn 1:26).

Devemos estar atentos ao apelo intelectual de alguma forma de determinismo ambiental. Não é o modo de produção que despersonaliza os homens; é a filosofia de autonomia despersonalizada que leva à despersonalização dos métodos modernos de produção.

O mercado como limitador da despersonalização

Mesmo assim, sabemos que os comentários de Tocqueville são significativos. Sabemos, por exemplo, que a superespecialização da produção leva a uma atenção robótica e displicente aos detalhes, e portanto ao aumento de acidentes industriais. Esses métodos despersonalizados e superespecializados também produzem tédio, e isso, por sua vez, leva ao alcoolismo, ao absenteísmo e a outros problemas sociais que interferem na produtividade geral. Algumas fábricas foram redesenhadas para reduzir a especialização da produção, acrescentando etapas extras ao processo pelas quais um trabalhador é responsável, ou criando equipes de trabalhadores com um verdadeiro senso de cooperação.

Devemos lembrar que homens despersonalizados, em última análise, produzem menos. Zumbis não são trabalhadores criativos, cuidadosos, entusiasmados. O mercado cria contra-pressões à superespecialização no ponto em que ela ameaça a lucratividade. Torna-se lucrativo para empresas menos especializadas entrarem no mercado em concorrência com companhias mais antigas e altamente especializadas. Essas novas firmas oferecem ao trabalhador entediado uma saída. Os homens precisam dessa liberdade de escolha, e onde ela existe, o mercado restringe a superespecialização e seus efeitos colaterais. (Um efeito colateral é um efeito real que preferiríamos evitar e que não planejamos; por isso o chamamos de “colateral.”) A produção socialista, sendo monopolista, não oferece pressões comparáveis contra a superespecialização.

Mais uma vez, não devemos confiar em uma forma particular de organização econômica — a saber, o livre mercado — para nos proteger de uma religião falsa. Não devemos ser deterministas ambientais. A crise de nossa era é uma crise espiritual, não uma crise econômica. A crise econômica é produto da crise filosófica e espiritual, contrariamente a Marx e aos comunistas, que preferem ver a crise econômica como primordial. O que precisamos é de uma filosofia bíblica do homem e do trabalho. Podemos então combinar isso com a instituição do livre mercado, que oferece liberdade de escolha nas ocupações e impõe pressões competitivas para conter os fatores no processo produtivo que reduzem a lucratividade.

Propósito, vocação e a ética cristã do trabalho

O trabalhador de hoje olha para seu trabalho a partir de suas pressuposições últimas. Se ele está alienado de Deus, estará alienado de alguns segmentos da criação de Deus — e, cada vez mais em nossos dias, isso significa o trabalho. Os homens estão entediados com seu trabalho. Eles não veem seus labores em termos do chamado de Deus para sujeitar a terra (Gn 1:28-30). Eles não encontram um senso de propósito no universo e, cada vez mais, não encontram um senso de chamado superior ou propósito último no seu trabalho. Nessa condição, é inevitável que o trabalho de um homem eventualmente o repila — mesmo que ele seja um viciado em trabalho (workaholic).

Um homem enterra-se em seu trabalho para escapar do propósito, para esquecer o propósito, e para encontrar sentido no próprio labor. O sinal de que ele não consegue encontrar esse sentido pode ser uma fuga para atividades de lazer — ou pode ser uma busca demoníaca por trabalho em excesso. O homem médio em nossa era parece fugir do trabalho, deixando montes de tarefas para os poucos que se tornam workaholics e nelas se enterram. Os homens frequentemente perseguem aquilo que os repele e que sabem que eventualmente os destruirá — e o trabalho pode ser uma dessas coisas. A questão é que, ao abandonar a fé em Deus, a fonte do sentido, o homem moderno perde o senso de propósito.

À medida que a antiga ética protestante do trabalho morre — uma ética baseada no conceito de domínio sob Deus — percebemos que a qualidade do trabalho declina. Toda área é ameaçada por esse declínio do respeito pelo trabalho. Não há workaholics suficientes para remendar a ética de trabalho em ruínas. Ainda assim, os homens precisam da ética em sua forma teocêntrica original, se quiserem permanecer fiéis ao seu senso de chamado. Não foi o respeito pelo trabalho, em si, que criou o mundo moderno da produção em massa. Foi o respeito por Deus, que ordenou aos homens que sujeitassem a terra para Sua glória, que criou o respeito pelo trabalho.

Estamos testemunhando a erosão constante de nosso capital espiritual — a fundação da ética de trabalho — e, como resultado, vemos desempenhos negligentes. A indústria automotiva tem uma regra não escrita: nunca compre um carro feito numa sexta ou numa segunda-feira. Os trabalhadores de sexta pensam no fim de semana cheio de diversão, e os de segunda estão se recuperando dele.

A ascensão da indústria do artesanato doméstico não é simplesmente um produto dos preços mais altos dos bens de consumo. Levando em conta o tempo do homem, a maioria dos produtos feitos em casa é muito mais cara do que os itens produzidos em massa. Os homens criam produtos dos quais podem se orgulhar quando trabalham em sua oficina ou garagem. Eles podem apontar para seu próprio artesanato e dizer: “Fui eu quem fez, do começo ao fim.” Claro, isso não é totalmente verdade. Considere a divisão do trabalho necessária para criar um simples prego — sem mencionar uma serra elétrica sofisticada. Ainda assim, é o uso da ferramenta na produção personalizada que pode produzir um senso de realização. O mercado respondeu a essa necessidade de sentir-se responsável pela criação de um produto — e nasceu a indústria do “faça você mesmo”.

Nem todos nós podemos ser escritores. Escritores sempre podem olhar para o produto de seus próprios esforços e dizer: “Eu produzi isso.” Essa é uma das grandes compensações que a maioria dos escritores recebe, já que pouquíssimos deles vivem disso, a não ser que estejam na folha de pagamento de um jornal ou revista. Nem todos nós podemos ser escultores, pintores ou artistas plásticos. Nem todos nós podemos ser artesãos que produzem bens de alto valor para os ricos.

A maioria dos homens precisa atender às necessidades de seus semelhantes, e seus semelhantes desejam bens e serviços com preços competitivos. Isso exige um grau considerável de produção em massa. Mas o gestor cristão cuidará de criar um senso de realização entre sua equipe. Ele fará o que estiver ao seu alcance para promover o evangelho de Cristo conforme se aplica ao trabalho, não apenas como meio de salvação pessoal. Não podemos criar um senso de realização em nosso trabalho sem ter um senso de propósito que forneça o referencial para avaliar nosso desempenho. O chamado de Deus oferece esse propósito último.

Homens e mulheres devem ser encorajados a encontrar um sentido pessoal em suas tarefas aparentemente entediantes. Eles estão servindo a Deus e ao próximo ao serem trabalhadores honestos, eficientes e confiáveis. Também devem ser encorajados a encontrar meios de servir fora de seus empregos, caso seu trabalho lhes seja penoso. Serviço, lazer, recreação, artesanato doméstico, labuta, tédio e lucro: tudo isso é legítimo e recompensador se realizado dentro do personalismo cósmico da criação de Deus. Subjugar a terra nem sempre é um piquenique — e mesmo quando é, as formigas aparecem.

Mas o trabalho é santo se feito sob Deus e para Deus. Quando os homens compreendem esse princípio, a alienação do trabalho moderno será drasticamente reduzida. A resposta ao trabalho alienado não é a propriedade estatal dos meios de produção. A resposta é a compreensão de que Deus é o proprietário supremo e que somos meros mordomos de Sua propriedade (Sl 50.10-11; Mt 25.14-30).

Fonte: Biblical Economics Today

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